terça-feira, 12 de julho de 2011

Fundação de São Teotónio (Odemira)


 


 


 

António Martins Quaresma


 

A primeira indicação disponível sobre a existência de um núcleo populacional na área remonta à primeira metade do século XVI. No "recenseamento" que, por ordem régia de 1527, se estendeu a todo o país, sendo levado a cabo na região de Entre Tejo e Odiana em 1532, consta uma povoação chamada Pé do Serro (ou Pé da Serra), três léguas a sul da vila de Odemira. Com 22 moradores, seria, segundo esta fonte, o maior aglomerado rural do concelho. Atendendo às indicações do texto – distância e direcção –, trata-se de lugar um pouco a sul da actual aldeia de São Teotónio, ainda que, aparentemente, o nome não tenha sobrevivido na toponímia. Este topónimo induzido pela orografia é relativamente comum em zonas montanhosas, como é parte da que consideramos. É de salientar que as características topográficas da actual povoação de São Teotónio não contradizem a imagem de um lugar situado na base ou na proximidade de cerro ou cerros. Como diz a Memória Paroquial de 1758: "Está esta Aldeya situada em hum valle, e a sua freguezia, duas pártes della he montuoza, e a outra parte he charneca de campiña, e desta parte se descobre o mar, por ser costa combatida muito dos mouros no tempo do veram, por nam ter fortaleza". Em todo o caso, nas vésperas da constituição da freguesia, os nomes que aparentemente correspondiam a lugares de maior importância eram Amieira, Orada (ou Santa Orada) e Assoreiro, às vezes identificados com os cursos de água próximos (por exemplo, ribeira do Assoreiro). Neste último caso, entre os sentidos que vários autores têm atribuído ao topónimo, seleccionámos, por parecer mais adequados ao local, o de "vale" e "terra de semeadura", no pressuposto de que o termo tem origem semita.

A freguesia de São Teotónio foi fundada próximo de finais do século XVI, a partir das circunscrições de Santa Maria, a maior parte, e do Salvador, de Odemira. Recorde-se que, após um período de quebra e estagnação populacional, assistiu-se, da segunda metade do século XV em diante, a um ciclo de expansão demográfica que se prolongou pela centúria seguinte. Embora não tenhamos séries de dados numéricos que permitam confirmar esta evolução no território em apreço, nada também sugere que ele tenha fugido à tendência geral. Entretanto, com a realização do Concílio de Trento, cujos decretos foram considerados leis do reino, a Igreja encetou um processo de reorganização, tendo em vista uma superior eficácia catequética, que acabou por se traduzir na maior densificação da rede paroquial.

A escolha de São Teotónio como orago expressa influências eruditas, vindas "de cima", uma vez que este santo de origem portuguesa não faz parte do tradicional elenco dos santos da devoção popular. A pouco fiável versão biográfica contida na Vida do Admirável Padre S. Theotonio diz que "No Campo de Ourique há também Egreja sua, como em memoria d'aquella insigne victoria, que por sua Orações se alcançou contra o poder dos ímpios Mouros", estabelecendo assim uma inaceitável ligação entre esta igreja e uma expedição militar ao Alentejo que ele patrocinara. Apesar disso, a própria tradição oral, corrente até há pouco, asseverava que a paróquia tinha sido fundada por um bispo. Como veremos, esta tradição encontra-se bem confirmada pela documentação histórica, que a seguir se indica.

Uma testemunha num processo que opôs a fábrica da igreja à câmara de Odemira, homem idoso, declarava ter lido num antigo tombo que a edificação da igreja se devera a um bispo chamado D. Teotónio. Este, vindo dos banhos de Monchique, ter-se-ia perdido na serra e ficado hospedado na herdade da Gaga, junto ao local onde depois se faria a igreja. Verificando então o grande incómodo dos moradores daquele monte em serem fregueses de Odemira, persuadiu-os a fazer doação de um bocado de terra da dita herdade, para nele se erigir a igreja e construírem os moradores as suas casas, pelo foro de cem réis por cada casa pagos à fábrica. O cuidado do arcebispo D. Teotónio contou com o apoio, se não mesmo a iniciativa, dos 40 lavradores residentes na área. Esta informação, embora pouco credível em alguns pormenores, é perfeitamente aceitável quando afirma que a criação da nova freguesia compreendeu a interferência pessoal do bispo, que inclusive esteve no local.

O padre João Baptista Vilhena, pároco em 1815, que parece bem informado, afirmava que a igreja tinha como orago São Teotónio "porque erigida por authoridade do Ex.mo e R.mo Snr Arcebispo de Evora D. Theotonio" –, ou seja, D. Teotónio de Bragança, que governou a arquidiocese de 1578 a 1602.

Por outro lado, a fazer fé num escrito do pároco de São Teotónio, datado de 1821, a paróquia, com pároco nomeado, tinha tido seu início havia 250 anos.
Feitas as contas, teria sido fundada em 1571, o que deveremos tomar por data aproximada, pois terá sido um pouco posteriormente. Apesar de tardia, esta fonte merece credibilidade, já que o seu autor se terá apoiado em documentação então existente no arquivo paroquial, embora aparentemente os 250 anos referidos pelo pároco fosse um número redondo e aproximado. Em todo o caso, as menções expressas à freguesia só aparecem alguns anos depois daquela data, embora ainda no século XVI.


 

Em conclusão, D. Teotónio visitou, efectivamente, o Campo de Ourique uma única vez, numa longa viagem de quase cinco meses, entre fins de 1583 e parte de 1584. Passou também por Odemira, tudo indica por essa altura, onde crismou gente da terra na igreja do Salvador,
e certamente não terá deixado de colocar a questão das novas freguesias ao clero local, especialmente a de São Teotónio, até porque havia pelo menos o precedente da nova freguesia de Sabóia, já instituída. A fundação
da paróquia poderá ter-se verificado pouco depois, como ademais os livros paroquiais de registo de baptismos, casamentos e óbitos indicam. Lugares como os citados Assoreiro, Amieira e Orada, depois incluídos na paróquia de São Teotónio, constam nos róis de Santa Maria até 1584, e o primeiro registo conhecido com o nome da nova freguesia data de Fevereiro de 1593, altura naturalmente em a igreja já estava terminada. Portanto, o processo de constituição da freguesia e construção da igreja ter-se-á desenvolvido a partir de 1584 e terá sido concluído sete ou oito anos depois. Entretanto, o arcebispo D. Teotónio escolheu (ou aceitou) para orago o santo do seu nome, cuja veneração, como vimos, não tinha aqui raízes.


 

O exemplo de São Teotónio parece revelar não haver um afinado plano prévio na densificação da rede paroquia por parte da Arquidiocese, mas não há dúvida de que a favoreceu e incentivou – e que terá contado com a participação decisiva dos moradores.

A igreja, relativamente central no território da paróquia, foi erguida sobre pequena elevação, limitada por um profundo barranco do lado de nascente, em zona típica de "serra" (mas com a planície litoral bem perto), rodeada de cerros de mais elevada cota. Na realidade, a povoação fica no fosso de um horst, relevo que emerge da planície litoral e que faz a transição para a plataforma interior chamada, no dizer do povo, "mar alto". Mais uma vez, como que confirmando a existência de uma decisão "superior", encontramos os critérios que presidiram à escolha de sítios para edificação das igrejas paroquiais do concelho: centralidade e capacidade para sustentar uma povoação.

O casario da povoação derramou-se pela encosta, a nascente da igreja, na direcção do vale onde corre um ribeiro. Nos arredores, aproveitando a fertilidade dos terrenos e a existência de água, os moradores foram tecendo uma rede de pequenas explorações agrícolas, com vinhas e hortas que abasteciam a população de produtos mimosos.

Tal qual aconteceu com muitas das paróquias rurais, a organização espacial de origem eclesial antecipou e esteve na base da circunscrição administrativa que hoje existe. No caso vertente, deu origem a uma enorme freguesia de 346 Km2, distribuída pela serra e pela charneca. Do lado de Poente, era limitada pelo oceano, com extensa e penhascosa linha de costa sem bons ancoradouros: no início do século XVII, apenas é citada uma "angrazinha", próxima do cabo Sardão (decerto a actual Entrada da Barca), cujo aproveitamento como porto de pesca de sardinha e atum o engenheiro real Alexandre Massai aconselhava em 1621. O mesmo escrevia então que este litoral não tinha senão "alguãs cazinhas pella terra adentro de lauradores". A frequência com que corsários e piratas percorriam a costa e desembarcavam para roubar e cativar habitantes era também factor de dissuasão de povoamento; uma das actuais povoações desta freguesia – Cavaleiro – memoriza a existência de um lugar de vigia sobre a costa, lugar designado por Vigia do Cavaleiro, indicando que ali era colocado um vigilante provido de cavalo para rapidamente poder dar o alarme em caso de suspeita de desembarque de corsários.

O templo possuía, como era comum,
um relativamente vasto logradouro, onde, como desde o início ficou previsto, o casario da povoação se foi erguendo. O poder de atracção da igreja e a facilidade de, mediante módico foro anual, os fregueses construírem as suas casas ajudaram grandemente o desenvolvimento da aldeia. Em 1772, a fábrica da igreja cobrou 13.740 réis desses foros, a uma média de 100 réis cada casa, o que significa o número de quase 140 casas. À fábrica pertenciam ainda as casas de morada do cura e do sacristão. A edificação de moradias tinha, em 1821, quase esgotado o terreno disponível. Por essa altura, face a anomalias cometidas ou permitidas nos aforamentos pelos oficiais da fábrica, já nas escrituras, já na desordenada construção das casas, o pároco requereu ao vigário geral que os aforamentos se fizessem apenas com autorização do juízo eclesiástico, o que não terá sido do agrado dos interessados. Sobre o assunto, o juiz de fora de Odemira opinava que o povo, na sua mal entendida noção de liberdade, não sabia dar valor às vantagens da ordem. O espírito iluminista, talvez mesmo liberal, parece ressaltar das posições do pároco e do magistrado.

Em todo o caso, divisa-se ainda na parte mais antiga da povoação certa regularidade da malha urbana. A aldeia expandiu-se na direcção de nascente, descendo pela encosta e deixando a igreja isolada no alto da colina. O eixo estruturador do crescimento terá sido a rua aproximadamente perpendicular à faceira nascente da igreja, sucessivamente acrescentada (até à actual Rua 5 de Outubro), na qual entroncaram, designadamente, as actuais ruas José Estêvão (antiga Rua do Meio), Alexandre Herculano (antiga Rua Direita), do Poço, José Pedro Gaspar Guerreiro, Detrás e Dr. Jaurés. Em meados do século XIX, pagavam foro à fábrica casas nas seguintes ruas, designadas pelos nomes então usados: Rua da Igreja, 9 foros; Rua do Meio, 18 foros; Terreiro, 13 foros; Rua de Diante, 22 foros; Rua da Fonte, 11 foros; Rua Direita, 24 foros; Rua da Praça, 23 foros; Rua de Trás da Igreja, 1 foro; Largo da Praça Nova, 6 foros; Rua do Poço, 11 foros. Em certas ruas, como a Rua do Meio, todas as casas eram tributárias à fábrica. Noutras, como a Rua da Fonte, grande parte das casas já tinham sido construídas em terra de outros senhorios. Algumas artérias mais periféricas, como a Rua do Castelo, a Rua do Calvário e a Rua de São Miguel, com significativo número de casas, ficavam totalmente fora do terreno da igreja, uma vez que não nenhuma das moradias pagava foro à fábrica.

No conjunto, embora surjam expressões como "largo", "praça" (uma Praça Nova e uma Praça Velha), "terreiro" e até uma Rua Direita, faltava naturalmente uma verdadeira praça civil, com os atributos próprios de uma vila, que São Teotónio não era; apesar disso, essas designações relacionar-se-ão com alguns dos usos característicos desses espaços públicos. Em 1845, a câmara decidia mesmo que, no mercado de S. Teotónio, o pescado, o azeite e as madeiras se venderiam na "praça nova"; o restante na "praça velha".

O adro da igreja teria características de "praça" religiosa, mas a utilização agrícola de boa parte do espaço anexo ao templo, nomeadamente o que ficava diante da sua frontaria, retirava-lhe feição urbana. A qualidade de logradouro comum, de rossio, do espaço contíguo à igreja está patente num conflito que opôs a fábrica a um almotacé da câmara de Odemira, Marcos José da Rosa, em 1791. A pedido de um morador, Pedro José Simões, considerado adverso aos cargos da igreja e aos que neles serviam, o almotacé mandou cortar um sobreiro pelo pé e as pernadas de outros, fazendo publicar edital em que proibia, sob pena de multa e prisão, que alguém prendesse cavalgadura no local. Esta acção foi considerada pelo juiz e mais eleitos da fábrica como um desrespeito à propriedade da igreja e uma violência contra os moradores. Foi então referido que os fregueses do campo ali deixavam as cavalgaduras quando vinham à igreja e debaixo dos sobreiros se abrigavam quando chovia ou estava calor. Os próprios viajantes usavam o local para descansar. Alguns almocreves costumavam mesmo demorar-se nele, para venderem comestíveis aos habitantes. Tratava-se, aliás, do único sítio possível, visto que em volta tudo era terreno cultivado.


 


 

Terramoto de 1755


 

No dia 1 de Novembro de 1755, o violento sismo que tão graves estragos fez em Lisboa e noutras cidades deitou por terra parte da igreja. O pároco, P.e José Ferreira da Fonseca, emocionado, lançou e assinou a seguinte "nota" no livro de inventário da igreja:

"No anno de mil e Setecentos e Sincoenta e Sinco no dia de todos os Santos o primeiro de Nouembro do dito anno as noue horas do dia ouue hum terramoto em todo o mundo, que deRepente aRuinou a Cidade de Lx.ª Setubal, e no Algarue a Cidade de Faró, e Lágos, e outras mais terras do dito Reino = de tal sorte, que nunca já mais Se verám no Seo antigo estádo, e nesta freguesia aRuinou a capella mor porque cahio toda a Sua abobeda, e parede da parte da Carneira e huã parede da S. christia, e todos os telhados ficaram destruidos, e quazi todas as cazas desta aldea, para lembrança fis esta declaraçam".


 

E acrescentou em nota marginal: "duráram os tremores da terra hum anno intropoladamente".

A reconstrução, iniciada alguns anos depois, só foi concluída no final do século, mais uma vez graças à importante comparticipação dos fundos das confrarias. O grosso da despesa, porém, caberia ao Colégio Patriarcal de Lisboa, segundo sua obrigação. Passaram, no entanto, quase duas décadas antes que os seus responsáveis se decidissem a abrir os cordões à bolsa. Devido a este atraso, o que o terramoto não arruinou, o tempo se encarregou de o fazer, tornando a igreja completamente incapaz para o culto. Logo após a instituição da diocese de Beja, o pároco insistia para que se desse remédio à situação, e dava conhecimento ao novo bispo, D. Fr. Manuel do Cenáculo, pedindo a sua intercessão. Finalmente, por determinação régia, de 1774, a Sé Patriarcal cedeu a significativa verba de 11.000 cruzados (4.400.000 réis), destinada a reerguer a igreja a fundamentis. Os trabalhos decorreram entre 1775 e 1783, período durante o qual o culto se realizou no "oratório" ou "capelinha" do Senhor do Bonfim.

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