segunda-feira, 12 de novembro de 2012
“Sabóia”: um topónimo misterioso
António Martins Quaresma
O nome “Sabóia”, da aldeia e freguesia do concelho de Odemira, há muito suscita curiosidade. Inclusive, em 2 de Março de 1948, o ex-rei Humberto de Itália, exilado em Portugal, visitou a aldeia, conforme placa comemorativa fixada numa das paredes da sacristia da igreja. Nos anos 40, 50 e 60 do século XX, diversas publicações fizeram eco duma narrativa transmitida pelo registo oral, que remete o nome para a presença de um italiano, proveniente da região alpina de Sabóia, que aqui se instalou em época indefinida. Como é frequente, ocorrem variantes desta narrativa. Segundo uma delas, o italiano abriu “venda” para atender os viajantes; outra, que abriu estalagem. Uma versão recolhida num jornal local atribuía mesmo a esse presumível imigrante de Sabóia a condição de foragido.
Um toponimista português ponderou que topónimos como Pavia e Sabóia foram introduzidos por clérigos originários de Itália, cuja vinda teria sido promovida pelas ordens militares, na falta de “quadros” nacionais que efectivassem a evangelização das terras recentemente ocupadas pelo Estado cristão de Portugal. Outro autor acentuou que os estrangeiros entrados em Portugal, nos séculos XII e XIII, designadamente provenientes de Itália, eram pessoas do comércio e da indústria.
Todas estas explicações carecem, porém, de comprovação empírica. Além disso, a interpretação erudita não parece ter tido em consideração aspectos semânticos importantes, e o relato popular (aparentemente também de proveniência erudita) resultará de tardia tentativa de dar sentido ao nome. Talvez em parte por isso, numa interessante mudança de via interpretativa, outro autor creu ter encontrado a origem do nome numa língua semítica, falada localmente, com o significado de “passagem a vau”.
Em que ficamos, então?
Possivelmente, a origem do nome encontra-se em antigo hidrónimo pré-romano. O elemento Sab- está semanticamente relacionado com a ideia de “água”, portanto também com a de “rio”, tal como, por exemplo, no rio Sabor. Note-se que, pela altura em que este nome pela primeira vez aparece documentado (1256), também existia, perto do Tejo, uma Sabonha, ou Sabona, ou Saboya, que poderá ter a mesma origem. Neste caso pode ainda estar visível outro hidrónimo, semelhante a “Inha” (nome de afluente do Douro). Os dois elementos, de forma tautológica, teriam dado qualquer coisa como Sabóinha → Sabóina → Sabóia. Tudo remetendo para a existência de antigos substratos linguísticos, como acontece, aliás, com “Mira”. Portanto, embora o assunto precise de mais "afinação", podemos concluir que o topónimo Sabóia não terá relação com qualquer imigrante proveniente da estrangeira Sabóia, mas com uma realidade mais próxima e persistente – o rio.
Fontes escritas e bibliografia utilizadas:
ALMEIDA, Fernando Rodrigues de, O Outro Lado da História, Odemira, Câmara Municipal de Odemira, 2009.
FALCÃO, Áurea Paes, Pequena Monografia do Concelho de Odemira, Odemira, 1943, dactilografado, inédito (original na posse Raul Almeida, Odemira).
MORALEJO, Juan J., “Hidronimia Galaica Prerromana”, Religión, Lengua y Cultura Prerromana de Hispania (eds. Francisco Villar, M.ª Pilar Fernández Alvárez), Salamanca, Ediciones Universidad Salamanca, 2001, pp. 501-509.
MOREIRA, Domingos A., “Perspectivas para a Interpretação linguística do hidrónimo “Inha”, em Carlos Alberto Ferreira de Almeida: in memoriam, vol.II, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999, pp.107-119.
Odemirense, Ano III, n.º 65, de 17 de Outubro de 1957, pp. 4 e 5.
PEDRERO, Rosa, “El hidrónimo prerromano Mira”, Emerita, LXIL, 2, 1996, 361-374. Em linha: http://emerita.revistas.csic.es/index.php/emerita/article/view/238.
PEREIRA, Isaías da Rosa, “Dos livros e dos seus nomes. Bibliotecas litúrgicas medievais”, Revista de Historia de la Cultura Escrita, 4, Universidad de Alcalá de Henares, 1997, pp. 247-272.
Revista Alentejana, boletim da Casa do Alentejo (dir. Victor SANTOS), XXVII, 290, Lisboa, Junho de 1961.
SERRA, Pedro Cunha “Incidências Italianas na Toponímia Portuguesa (Esboço)”, em Philologische Studien Für Joseph M. Piel, Heidelberg, Carl Winter-Universitätsverlag, 1969.
SILVEIRA, Joaquim da, “Toponímia Portuguesa (Esboços), em Revista Lusitana, XXIV, 1-4, Lisboa, 1922, 1921-1922.
VARGAS, José Manuel, Sabonha e S. Francisco, Câmara Municipal de Alcochete, 2005.
VASCONCELOS, J[osé] Leite de, Etnografia Portuguesa. Tentame de Sistematização, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982.
VILLAR, Francisco, Indoeuropeos y no indoeuropeos en la Hispania prerromana, Salamanca, Ediciones Universidad de Salamanca, 2000.
Fonte oral:
Jaime Gonçalves Candeias (quando tinha 86 anos de idade).
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